Ele disse que eu não fui feita pra relacionamentos firmes, e eu o disse que, de fato, isso tinha uma grande probabilidade de ser verdade e que, entretanto, meu coração era um organismo extremamente fértil capaz de cultivar qualquer merda de organísmo que fosse capaz de cair alí e se desenvolver, e foi isso que aconteceu. E não só se desenvolveu como tomou proporções imensas. Imensas. Então, lhe falei que tinha medo desse tremendo espaço que isso ocupava ou viria a ocupar ainda mais, com o passar dos dias. E então ele me disse pra cortar logo pela raíz. Ouvir isso me dói tanto, na verdade acho que ele não tem sequer idéia do quanto isso me dói. E talvez isso me doa muito não só por imaginar o gosto da suposta perda, mas por eu pensar nisso também como uma alternativa. E me dói mais ainda pensar assim porque eu me sinto burra e injusta. Injusta porque isso me faz lembrar o dia que passei mal depois de tanta vodka e vomitei e adormeci e acordei e ele estava olhando pra mim como se tivesse ali por uma porção de horas apenas me olhando dormir, bêbada. E me fez lembrar também das gozadas simultâneas, do suco de laranja que ele demora quase uma hora pra fazer dois copinhos mas que no fim consegue ser o suco de laranja mais gostoso que já existiu. E me lembra como eu gosto de o ver acordar. Me lembra também quando ele põe o ouvido junto à minha boca e diz "diz". Aí então eu digo que o amo e ele me dá um beijo como se tivesse apenas poucos anos de idade e acabasse de receber um saco cheio de doce. E me lembra de mais uma dezena de coisas que me faz interrogar-se como e porque danado eu penso no fim. E é aí que me vem a razão, corrosiva, que me ajuda a pensar na coisa em seu devido lugar e, portanto, na vida que eu tenho à fazer pela frente, e do quanto é necessário espaço pra isso. E é exatamante aí onde fica o ponto inicial do circulo vicioso. Mas a verdade é que a perda me amedronta, e muito. Porque ao mesmo tempo que tudo isso acontece, no fundo eu sei que apesar das disparidades ele é a segunda e última pessoa no mundo capaz de me entender tão bem. Ou eu acho que seja, enfim. Isso implica que todas as outras pessoas automáticamente se tornam desertos. Então eu tenho medo, muito medo de qualquer fim. E apesar da demasiada chantagem emocional que eu sei que existiu na sugestão de cortar logo pela raíz, eu sei que existiu também um implorar implícito de compaixão, gritando pra que essa razão toda vá é pra puta que pariu. E, sabe, acho que o problema todo é o meu egoísmo, que não é pequeno. Não é que eu não fui feita pra relacionamentos firmes, o fato é que meu egoísmo não tem estrutura pra relacionamentos firmes, e isso é terrível. Dizer que eu convivo com meu egoísmo não quer dizer que eu o consinta, mas que eu ainda não aprendi a controlá-lo, abandoná-lo ou qualquer coisa que o valha. Só que eu vejo que tudo isso chegou a um ponto que se tornou ainda mais complicado do que antes porque independente desse egoísmo, ele já faz parte de mim. Não existe mais isso de relacionamento firme, fraco ou pendendo. Não existe mais isso de relacionamento. É como se tivesse acontecido uma simbiose. E portanto, não existe mais raíz. A raíz deixou de existir faz tempo. Logo, não se pode cortar mais pela raíz porque não existe raíz. O que existe agora é algo extenso, que de tão extenso torna-se desproporcional ao o espaço cabível.
3 comentários:
Engraçado como eu compreendo cada ponto e cada vírgula como se eu mesmo tivesse escrito esse texto.
Costumam chamar isso tudo de amor, seja em portugês ou em qualquer outra língua que se conheça ou tente inventar.
não é a toa que o dia 22 é importante nas nossas vidas ;)
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