- Ganhei asas e me pintei de céu. Repito centenas de vezes ao dia, pra não esquecer. Há momentos que ainda ressinto a falta, principalmente dos arrepios que tinha quando ele me cheirava o lado direito do pescoço, um pouco abaixo da orelha. Era engraçada a forma como o meu coração pulsava, ausente de qualquer tipo de ritmação, mas ainda assim, harmônico. Eu adorava observar a composição dos sons quando ele me tocava: o choque entre os pêlos, a troca de corpo e, enfim, coração. Sempre nessa ordem, até revesarem-se. Lembrei-me agora do dia em que ele me comprou uma flauta, e disse que assim, finalmente, eu poderia soprar um pouco do ar preocupado que morava em meus olhos. Ele sempre reclamava dos meus olhos. E também nunca se conformou por eles serem verdes, dizia que tinham de ser azuis pra transparecer o imenso céu que havia atrás deles. A verdade é que: o que se tem atrás deles nunca foi tangível. E eles vivem em constante busca de evasão. Ele foi embora, deixou-me uma tinta azul, e disse-me para pintar os olhos. Pintei-me toda de azul.
6 comentários:
Lindo! Que maravilha!
muito bom!!!
mesmo.
Gostei =]
atualizar né
esse é lindo
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