26 Outubro, 2009

Estou cega. Não, estou perdida. Perdida e presa. Vulcões movem a terra. Anjos e demônios percorrem a cidade escura, despercebíveis. Ocupando espaços, ocultando as saídas.

Anjos: Aí me lembro de quando eu dormia agarrada com tuas correntes, explicando a ti o mundo que não conhecias. Com toda aquela escuridão a cidade tornava-se apenas palpável. Para quê precisávamos de luz elétrica se tinhamos nossas próprias mãos?
Acho que estava ficando daltônica com toda aquela falta de luz. Não havia mais nada à identificar, nem distinguir.

Demônios: Era como um ensaio sobre a escuridão. Observava as pessoas que desmoronavam seus grandes castelos ao som de músicas fúnebres e é interessante dizer que, depois que os tinham à cacos no chão, resmungavam auto-destruições breves, e imediatamente voltavam a re-construí-los. E assim foram os grandes impérios posteriores.
Embora eu estivesse isento do vício alheio por não conseguir enxergar as mesmas estruturas físicas.

Percebo que agora enxergo, estou dentro de uma caixa escura e vazia com o pouco da lembrança que ainda me resta e perdendo, aos poucos, teus sorrisos e cabelos brancos.

13 Outubro, 2009

Em paralelo

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21 Setembro, 2009

Até as paredes dormem, é hora de colocar a roupa. São seis e seis e as fumaças também se encontram, a nicotina vem mais pra repôr as energias que para provocar uma sensação alfa de orgasmo. Sua silhueta tá formada por três graus e meio de miopia e o pouco da luz que entra pela fresta da varanda, parecendo uma fotografia de Goldin. Junto com a fumaça se vai também o passado não tão distante que a gente lembrava há poucos minutos, engraçado como nós, tão perto, tinhamos tudo pra nos encontrar mas não nos encontravamos, ou nos encontravamos e nos perdiamos logo em seguida. Mas e agora? O que tu pensas da gente? Olho pro lado e agora ele dorme abraçado com o seu proprio corpo. Ah, a gente agora é um só, eu te sou num corpo masculino e tu me és num corpo feminino. Tu me ama? Amo. Agora são sete e ainda dormem as pessoas, as paredes e ele. "Quem tá sem calcinha dá uma risadinha", e eu ri, mas já tinha vestido a roupa. Bom dia, vou dormir agora.

12 Setembro, 2009

Manifesto pós-antropofágico

Mas que coisa! Mal chegou a idéia de que existiu passado pra os que vão de retrô começarem a tomar forma utilizando-se dos brechós das esquinas. E aí já com as "roupas e acessórios-teletransportes" vivem surpreendentemente duas, três ou quatro décadas atrás. E salve as cores! Salve a ousadia! Salve o design arrojado das formas! Salve o exótico dos europeus! Salve a liberdade estética dos artistas! É tudo muito bonito de se ver. Já os mais puristas abusam menos dos visuais e predem-se a ser grandes leitores de prefácio. Tratam-se de grandes amantes das literaturas que se perdem em seus bolsos, verdadeiros buracos negros. Mestres na arte de colecionar! Parafraseiam trechos como ninguém. São capazes até de comer um livro inteiro pra depois poder vomitá-lo. Uma verdadeira bulimia literária. E assim pegam carona e criam quase que doutrinas com os demais autores, compositores e até intérpretes! Um grande endeuzamento àqueles que os tornam um tanto interessantes. Personalidades estão virando personagens! Personagens re-criados pelas mentes ocas viciadas em resumos. Algo semelhante ocorre com os grandes idealistas políticos dos recentes movimentos estudantis, ou nem isso. Chique é ser politizado. Grandes revolucionários de sofá entopem-se de ideologias. Um viva ao comunismo moderno! Quanto custa ser um comunista nos dias de hoje? Cartões estourados dificultam nas aquisições bibliográficas! Marx pra cá! Marcuse pra lá! Lenin! Se reviram no túmulo. Nos dias de hoje vê-se a formação de uma sociedade singela. Uma juventude demaseada lírica e acomodada. A classe dos jovens, hoje, se resume em apreciadores. Ou meio-apreciadores. A exagerada globalização está nos acostumando com as embalagens cada vez mais práticas dos supermercados. Estamos ficando cada vez mais limitados! A juventude está querendo tornar-se cópias baratas de gerações pensantes. Bem vindos à era da reprodução! Os novos estão precisando é lembrar do futuro! Vamos deixar de conversa furada e lutar contra essa robotização do cérebro. Chega da cultura da imbecilidade. Chega de auto-promoções. Precisamos de mais cineastas e menos cineclubistas de apartamento, precisamos de mais criatividade, precisamos de novas batidas, precisamos de mais surpreendimentos e menos clichês. Precisamos nos expandir, precisamos ir atrás do novo porque o que se copia, novo foi um dia. Precisamos ir atrás do novo de novo.

07 Agosto, 2009

Tenho medo do que possa vir depois do romance moderno

Ele disse que eu não fui feita pra relacionamentos firmes, e eu o disse que, de fato, isso tinha uma grande probabilidade de ser verdade e que, entretanto, meu coração era um organismo extremamente fértil capaz de cultivar qualquer merda de organísmo que fosse capaz de cair alí e se desenvolver, e foi isso que aconteceu. E não só se desenvolveu como tomou proporções imensas. Imensas. Então, lhe falei que tinha medo desse tremendo espaço que isso ocupava ou viria a ocupar ainda mais, com o passar dos dias. E então ele me disse pra cortar logo pela raíz. Ouvir isso me dói tanto, na verdade acho que ele não tem sequer idéia do quanto isso me dói. E talvez isso me doa muito não só por imaginar o gosto da suposta perda, mas por eu pensar nisso também como uma alternativa. E me dói mais ainda pensar assim porque eu me sinto burra e injusta. Injusta porque isso me faz lembrar o dia que passei mal depois de tanta vodka e vomitei e adormeci e acordei e ele estava olhando pra mim como se tivesse ali por uma porção de horas apenas me olhando dormir, bêbada. E me fez lembrar também das gozadas simultâneas, do suco de laranja que ele demora quase uma hora pra fazer dois copinhos mas que no fim consegue ser o suco de laranja mais gostoso que já existiu. E me lembra como eu gosto de o ver acordar. Me lembra também quando ele põe o ouvido junto à minha boca e diz "diz". Aí então eu digo que o amo e ele me dá um beijo como se tivesse apenas poucos anos de idade e acabasse de receber um saco cheio de doce. E me lembra de mais uma dezena de coisas que me faz interrogar-se como e porque danado eu penso no fim. E é aí que me vem a razão, corrosiva, que me ajuda a pensar na coisa em seu devido lugar e, portanto, na vida que eu tenho à fazer pela frente, e do quanto é necessário espaço pra isso. E é exatamante aí onde fica o ponto inicial do circulo vicioso. Mas a verdade é que a perda me amedronta, e muito. Porque ao mesmo tempo que tudo isso acontece, no fundo eu sei que apesar das disparidades ele é a segunda e última pessoa no mundo capaz de me entender tão bem. Ou eu acho que seja, enfim. Isso implica que todas as outras pessoas automáticamente se tornam desertos. Então eu tenho medo, muito medo de qualquer fim. E apesar da demasiada chantagem emocional que eu sei que existiu na sugestão de cortar logo pela raíz, eu sei que existiu também um implorar implícito de compaixão, gritando pra que essa razão toda vá é pra puta que pariu. E, sabe, acho que o problema todo é o meu egoísmo, que não é pequeno. Não é que eu não fui feita pra relacionamentos firmes, o fato é que meu egoísmo não tem estrutura pra relacionamentos firmes, e isso é terrível. Dizer que eu convivo com meu egoísmo não quer dizer que eu o consinta, mas que eu ainda não aprendi a controlá-lo, abandoná-lo ou qualquer coisa que o valha. Só que eu vejo que tudo isso chegou a um ponto que se tornou ainda mais complicado do que antes porque independente desse egoísmo, ele já faz parte de mim. Não existe mais isso de relacionamento firme, fraco ou pendendo. Não existe mais isso de relacionamento. É como se tivesse acontecido uma simbiose. E portanto, não existe mais raíz. A raíz deixou de existir faz tempo. Logo, não se pode cortar mais pela raíz porque não existe raíz. O que existe agora é algo extenso, que de tão extenso torna-se desproporcional ao o espaço cabível.

h ád issonâncias III

sei que agora eu posso dizer que até o ar que eu respiro ama você

06 Agosto, 2009

h ád issonâncias II

O amor pode nunca acabar, mas amor não é o que une as pessoas. Amor é egoísta demais. O que une uma pessoa a outra é de outra argamassa, e distância não combina com isso.